02
Mar 11

Continuação...

Pessoalmente adoro caminhar de noite na montanha. Não daquelas caminhadas que já fiz “à procura de lobos”. Mas daquelas que me obrigam a ter todos os sentidos apurados, já que à volta é apenas escuridão e portanto me dá aquela sensação de enorme fragilidade que apenas me permite sobreviver, algumas delas… também graças à sorte. Sinto-me como um ponto ínfimo no meio do negrume, do vento cada vez mais intenso que nos fustiga e na companhia da vontade de vencer. Esse é para mim o grande companheiro de qualquer aventureiro, especialmente na montanha. Vencer o cansaço, a dificuldade física de respirar pela altitude, da dor que se começa a fazer sentir no tornozelo e pela saudade do conforto. Afinal o que faço eu ali? Procuro a natureza? O equilíbrio puro do homem e da montanha. Venero a montanha e acredito que isso me fará conseguir o meu objectivo. E quanto mais sinto o peso da altitude e do esforço, mais necessidade tenho de escolher os pensamentos que me passam pela cabeça. Recordo quem deixei lá em baixo à minha espera, especialmente. Revejo dentro de mim momentos, e sentimentos que tive recentemente, como que para os reorganizar cá dentro. É o meu grande momento na montanha. Ajustar naquelas longas horas de silêncio e caminhada o meu Ser Interior. Reconhecer-me naquela imensidão de gelo, neve, vento, pedra e céu é um exclusivo e um privilégio!

E no final atingimos o “cume”. E à volta é só paisagem imensa a perder de vista. A liberdade é imensa!!! Para o que cada um quiser. Basta saber que dali para cima não há mais cumes. O objectivo foi alcançado.

E o melhor que tudo é que todos os 4 estivemos presentes naquele nascer do sol, no cume do Toubkal.

 

Marrocos, Fevereiro de 2011.

Texto de Nuno Pereira

Quem foi lá: Águia-real, José João, Nuno Pereira e Domingos Dias

Itinerário: Imlil - Marraquexe-Porto

Dados da actividade:Viagem Imlil/Marraquexe/Porto

Fotos de Vamos Ali... / Fotos de Águia-real /

e FOMOS ALI…

publicado por Vamos Ali às 12:04

Continuação...

A subida ao Toubkal (4.167 mts) começou às 4h30 da manhã. O céu era de um negro cintilante. O espectáculo prometia e o frio nem se fazia sentir, tal o nosso entusiasmo. De resto à volta apenas se via escuridão.

A forma de progressão na montanha à noite é mais lenta. Apenas guiados pelo feixe de luz e pelo trilho do dia anterior, neste momento totalmente gelado e rijo, e que nos obriga a socorrer do bastão, ou do piolet.

A subida acabou por ser endurecida pelo vento que começou a soprar já nos últimos 400 mts antes do cume e teimava em nos atirar agulhas de gelo à cara.

(Continua)

Texto de Nuno Pereira (Parte 3/4)

Quem foi lá: Águia-real, José João, Nuno Pereira e Domingos Dias

Itinerário: Refúgio de Nelter - Toubkal - Refúgio de Nelter - Imlil

Dados da actividade: Dia 3 - Manhã  Dia 3 - Tarde

Fotos de Vamos Ali... / Fotos de Águia-real /Fotos de Nuno Pereira

publicado por Vamos Ali às 12:03

Continuação...

E neste momento que sinto como a montanha passa a ser um actor secundário neste espectáculo da minha ida a Marrocos. Aquela viagem de jipe toma contornos vincados dentro de mim. Especialmente a paisagem humana que ficou lá em baixo. Com que motivos se agarram aquela carrinha que seguia à nossa frente e os levava em direcção a uma isolada aldeia no sopé do Atlas? Alguns com expressão fechada sem nos desviarem o olhar, outros até sorridentes, apercebendo-se da nossa estupefacção pela quantidade de gente que seguia pendurada no tejadilho da carrinha.

Já em Julho quando tinha vindo a última vez a Marrocos o meu pensamento discretamente virava para fotografias que interiormente eu tirava nas aldeias por onde passava. Gente que parecia não caber nas bermas da estrada e pouco se importavam com o autocarro que se esforçava por passar ao lado. Praças fervilhantes de gente com olhar curioso, escuro e duro que me pintou grande parte do quadro de Marrocos.

 

Naquela noite, já no refúgio, já em relaxamento, voltámos ao entusiasmo do programa. Que fazemos? Subimos já amanhã ao Toubkal, ou tentamos uns outros picos mais pequenos aqui à volta? O corpo acabou por falar mais alto e optámos por uma noite de descanso mais longo e perder o resto do dia a subir ao limite dos 4 mil metros (Timesguida e Ras, irmãos inseparáveis).

Que prazer aquele manto branco gélido reflectido pela neve! O silêncio é ensurdecedor e nem uma brisa de vento. Apenas o silêncio dos cumes, como paredes à nossa volta. Penhascos castanhos e brancos, limitados pelo céu de azul também ele gélido, que nunca me canso de olhar. Pela frescura que transmite.

(Continua)

Texto de Nuno Pereira (Parte 2/4)

Quem foi lá: Águia-real, José João, Nuno Pereira e Domingos Dias

Itinerário: Refúgio Nelter -Ras - Timesguida - Refúgio Nelter

Dados da actividade: Dia 2

Fotos de Vamos Ali... / Fotos de Águia-real /Fotos de Nuno Pereira

publicado por Vamos Ali às 12:02

Confesso que é sempre uma sensação estranha e que depois se entranha, aquele que um sente, com um bafo de ar quente e seco africano, depois daquele frio húmido que nos repele em pleno Inverno europeu.

O trajecto para o Atlas é como que um caminho que percorremos até chegar ao palco onde vamos ver uma actuação, praticamente sempre com os cumes no horizonte, que lentamente se vão tornando mais visíveis. Acresce que nos acompanha um nervoso miudinho, típico de quem está prestes a receber uma excelente surpresa. A forma como se vislumbra a paisagem que nos rodeia, naquela estrada alcantilada entre Marraqueche e Imlil, no sopé da grande montanha, mais faz lembrar o advento do homem que procura a melhor forma de atingir o cume que ainda nem sequer é visível.

Os pensamentos sucedem-se. A mochila pesa pouco, talvez tenha sido esquecido alguma coisa… Como estará o acesso ao cume? Aquela dor no tornozelo que senti há dois dias e que neste momento ainda me dá tréguas, oxalá nem eu sinta na subida que me espera. Como vai ser a subida com os meus companheiros. Há muito tempo que não caminhamos todos em grupo…

Enfim, entre estes pensamentos cortados por comentários dos companheiros, volto a fixar o olhar na paisagem que me rodeia. Veículos uns atrás dos outros que nos passam metade pela estrada, outra metade pela berma que começa a ser cada vez mais íngreme e limitada pelo vale do rio cada vez mais escarpado. Por vezes o jipe é abrandado pela proximidade de um pesado que segue lentamente à nossa frente e mais parece ocupar todo a estrada que consegue.

Gente que se encavalita em tudo quanto pode na carrinha, naquela viagem para a aldeia. Gente que passa lentamente na berma da estrada, no meio do nada, apenas acompanhados alguns pela mula que segue também ela em passo constante à frente, outros, acompanhados apenas pela confusão da estrada e o marejar do rio nascido no degelo da montanha que cada vez se levanta mais imponente à nossa frente.

A subida ao refúgio correu de forma exemplar, onde acabámos por chegar de noite, com frontal na cabeça. Ainda assim foram mais de quatro horas de caminhada a pé, desde os 1.700 mts de altitude até ao 3.200 mts, já no meio da neve. Um caminho que deu para recordar ainda aquele casal que seguia também numa mota lá em baixo. Ela sentada atrás, com um enorme cesto no colo. Gente simples, apenas mais um com que nos cruzámos euforicamente com o nosso objectivo obcecado na mente. E ali… no meio do nada, onde os meus companheiros seguem à frente, posso finalmente sentir o prazer da montanha. Do espaço frio e silêncio daquele recôndito lugar “in the middle of nowhere”. O poder que ela nos transmite é proporcional ao desafio com que nos confronta. Sentir todos os músculos do corpo a responderem lentamente ao esforço da subida.

(Continua)

Texto de Nuno Pereira (Parte 1/4)

Quem foi lá: Águia-real, José João, Nuno Pereira e Domingos Dias

Itinerário: Porto-Marraquexe-Imlil-Refúgio de Nelter

Dados da actividade:Dia 1

Fotos de Vamos Ali... / Fotos de Águia-real /Fotos de Nuno Pereira

publicado por Vamos Ali às 12:01

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